Artigo do Embaixador Dr. Christof Weil editado na Revista E do Expresso, edição de 15 de abril.

Se existisse um panteão da integração europeia, o nome do primeiro Chanceler Federal alemão não poderia lá faltar. Konrad Adenauer (1876-1967) foi um dos signatários do Tratado de Roma, cujo 60.º aniversário recentemente celebrámos, e do Tratado do Eliseu, que continua a ser até hoje o alicerce institucional da amizade franco-alemã. Estes documentos fundamentais para a história alemã do pós-guerra refletem a importância histórica de Adenauer, assente na sua convicção de que a única resposta adequada à chamada "questão alemã", depois de duas devastadoras guerras mundiais, seria a de ancorar resolutamente a República Federal da Alemanha no "mundo ocidental".

Esse legado exerce a sua influência até aos dias de hoje. Em 2003, um programa de grande audiência da televisão alemã (comparável ao programa Os grandes portugueses da RTP) apenas confirmou o que inúmeras sondagens anteriores já indicavam: o chamado "velho de Rhöndorf" (a aldeia pacata, junto a Bona, onde Adenauer vivia) surgia no topo das preferências do público alemão (deixando, por exemplo, Lutero, Bismarck ou Marx a uma distância considerável). Esta estima por Adenauer na Alemanha é igualada pelo respeito que lhe é prestado em termos internacionais, como, por exemplo, demonstrou o seu funeral, em abril de 1967, há precisamente 50 anos. Os principais Chefes de Estado e Governo ocidentais marcaram presença para prestar a última homenagem ao Chanceler, encabeçados pelo Presidente norte-americano Johnson, o seu homólogo francês de Gaulle, o Primeiro-Ministro britânico Wilson e, num gesto de grande generosidade, apenas 22 anos após o Holocausto, também o Presidente de Israel, David Ben Gurion.

O antigo Presidenta da Câmara de Colónia, que foi afastado do cargo e marginalizado pelos nacional-socialistas, ganhou as eleições para a Chancelaria, em 1949, no Bundestag alemão, com uma maioria de apenas um voto (o seu próprio). Tinha ele 73 anos e estava perante a tarefa ciclópica de instituir uma ordem económica e de Estado liberal e funcional, pelo menos, na parte ocidental da sua pátria derrotada, ocupada, destruída e dividida. Para mais, era necessário acolher milhões de refugiados e deslocados dos antigos territórios alemães do Leste europeu. Adenauer deu cobertura política ao seu Ministro da Economia Ludwig Erhard na implementação da "economia social de mercado" - o que na altura representou um gesto de ousadia, e acabou por lançar as bases do chamado "milagre económico alemão". Na política interna Adenauer também se destacou por ter tornado a CDU num partido moderno e cristão-democrata, que reúne diversas confissões.

Um dos maiores desafios para Adenauer terá sido a progressiva consolidação da divisão da Alemanha no contexto da Guerra Fria. No caso de Adenauer, o anticomunismo e a política de aproximação ao Ocidente eram duas faces da mesma moeda. Nunca abriu mão do seu objetivo central da "união em liberdade". A esse propósito servia, por exemplo, a pretensão da RFA de ter a legitimidade exclusiva de representação internacional, que ele defendia tão aguerridamente como a igualdade de direitos da RFA em relação aos seus aliados ocidentais. A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e a CEE encontram-se entre as estruturas decisórias de integração europeia que Adenauer quis fomentar na Europa (ocidental). A ambição de ancorar firmemente a RFA no Ocidente, mediante a sua inclusão em estruturas de aliança e tratados, servia como dupla garantia a nível interno e externo. Entre as decisões mais controversas de Adenauer está a sua recusa em nem sequer ponderar a proposta de Estaline de unificar as duas partes da Alemanha, em troco da sua neutralidade. O risco de comprometer a confiança na política externa de Bona, que gradualmente despontava entre os países aliados, pareceu-lhe demasiado grande. Porém, não foi isso que o impediu de viajar para Moscovo três anos mais tarde, i.e., depois da adesão à NATO e do rearmamento, sem consultar as potências ocidentais. A viagem culminou no restabelecimento das relações diplomáticas com a União Soviética e no regresso dos últimos 10 mil prisioneiros de guerra à Alemanha - um mérito singular de Adenauer que se fixou de forma duradoura na memória coletiva de muitos alemães.

A postura política intransigente de Adenauer em relação à própria Alemanha e a sua aplicação no âmbito da "doutrina Hallstein", que determinava que Bona cortaria relações com todos os Estados que reconhecessem o regime de Berlim-Leste, valeu-lhe muitas críticas nos seus últimos anos como Chanceler, sendo acusado de rigidez ideológica. Na companhia de políticos mais jovens como John F. Kennedy ou Willy Brandt, o primeiro Chanceler Federal mais parecia uma relíquia de outros tempos. Crises no âmbito da política interna alemã levaram à sua demissão, em 1963, e ao fim da era a que emprestou o seu nome. Suspeitando do grau de confiança dos EUA e com uma aproximação gradual à visão da política europeia de Charles de Gaulle, Adenauer ainda assinara o Tratado do Eliseu antes da sua demissão.

A reunificação da Alemanha em 1990 - em concertação com os nossos vizinhos e parceiros - foi vista por muitos como um triunfo tardio da política de Adenauer. O "efeito de atração" que ele esperava que o modelo económico e social da RFA exercesse sobre os alemães na RDA chegou a verificar-se, como demonstraram os eventos antes, durante e depois da queda do Muro. A "questão alemã" ficou, portanto, definitivamente resolvida no seio da Europa e, mesmo que não se tenha alcançado o "fim da história", fechou-se, ao menos, um capítulo da história particularmente trágico e violento.

Dr. Christof Weil

Embaixador da República Federal da Alemanha