Artigo de opinião do Embaixador Dr. Christof Weil "O Chanceler da Unidade": sobre o legado do patriota europeu Helmut Kohl, publicado a 23 de junho no DN.

Os votos de pesar vindos de todo o mundo e as homenagens póstumas de reconhecimento revelam em uníssono: o Chanceler Federal Helmut Kohl deixou, graças aos seus grandes méritos, a sua marca na história alemã e europeia. Para ele, a "unidade em liberdade" dos alemães e a integração europeia constituíam duas faces da mesma moeda. O seu objetivo era muito claro: A Alemanha unificada teria de permanecer integrada na comunidade de países ocidentais. A Chanceler Federal Angela Merkel, que Helmut Kohl escolhera para o seu Conselho de Ministros, em 1991, como Ministra do Ambiente, referia-se por ocasião do seu falecimento à "arte de um homem de Estado ao serviço das pessoas e da paz".

Como político notabilizou-se desde cedo: em 1969, tornou-se o Ministro-Presidente mais jovem de um Estado federado alemão (Renânia-Palatinado); em 1973, o mais novo Presidente da CDU; em 1982, o Chanceler Federal mais novo da Alemanha; assumiu a Chancelaria durante 16 anos - mais tempo que qualquer outro até à data. Kohl deixou a sua marca no seu país e na Europa, cujos efeitos são evidentes até aos dias de hoje. Helmut Kohl conquistou a chancelaria depois de os liberais terem deixado a coligação com o Chanceler Federal Helmut Schmidt (SPD). Porém, como político pragmático, Kohl apostou na continuação da política de aproximação à RDA, seguida pelos seus antecessores sociais-democratas, que visava melhorar progressivamente as condições de vida das pessoas. Essa abordagem culminou, em 1987, com a receção oficial em Bona ao Presidente do Conselho de Estado da RDA, Erich Honecker. Enquanto muitos alemães na parte ocidental se habituavam à ideia de dois Estados alemães, para Kohl a superação da divisão alemã permanecia um objetivo patriótico fulcral, sem nunca perder de vista as suas condicionantes internacionais.

Ao implementar a "dupla decisão" da NATO nos anos 80, Helmut Kohl conseguiu reforçar a sua fiabilidade em termos de política de alianças. Nesse tempo, o Presidente dos EUA George H. W. Bush considerava a Alemanha "um parceiro na liderança". A ascensão de Kohl para a proa dos decisores políticos na Europa também se deveu à sua relação pessoal próxima e franca com os seus homólogos europeus, alicerçada numa profunda confiança mútua. Nesse âmbito, Kohl sempre demonstrou uma grande sensibilidade em relação às feridas infligidas pela barbárie dos nazis. Nascido em 1930, ele presenciou conscientemente os horrores da guerra, com que a Alemanha assolou o mundo. Esta experiência marcou-o durante a sua vida inteira, tornando-se o móbil da sua política europeia como política de paz. A reconciliação constituía uma das bases fundamentais da sua atuação em termos de política externa. Uma imagem que simboliza essa atitude: Helmut Kohl de mãos dadas com o Presidente francês Mitterrand nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial em Verdun. Ao mesmo tempo, a política europeia de Kohl também se caracterizava por estabelecer uma relação de igualdade com os parceiros supostamente "mais pequenos".

No outono de 1989, quando as alterações profundas na Europa e Alemanha de Leste geraram uma dinâmica anteriormente inimaginável, a confiança de que Helmut Kohl gozava em termos internacionais e a sua reputação como parceiro confiável foram a base fundamental para a sua política em relação à Alemanha. Bismarck terá dito um dia que quando Deus passa pela história, é imperativo que o homem de Estado se tente agarrar à sua franja, para ser levado o mais longe possível. Kohl agarrou a oportunidade com convicção e aproveitou a ocasião histórica para unificar os alemães, em concertação com os seus vizinhos e parceiros.

Nesse âmbito, ele teve sempre plena consciência do desafio em criar um equilíbrio entre a posição central da Alemanha e as exigências da estabilidade europeia; nunca mais poderia haver um "Sonderweg" [desenvolvimento particular] alemão. Num encontro no Cáucaso, em julho de 1990, Helmut Kohl convenceu Gorbachev de que a adesão da Alemanha reunificada à NATO favoreceria os interesses de todos em matéria de segurança. Além disso, Kohl apostou convicta e decididamente na Europa: ele apadrinhou a criação do mercado único e o Tratado de Maastricht, que já previa a criação da UE e a introdução do Euro. Kohl pretendia tornar a integração europeia um processo irreversível.

Para Henry Kissinger, a essência da verdadeira "arte de Estado" consiste em colmatar o fosso entre a experiência de um povo e a sua visão de futuro. Helmut Kohl foi bem-sucedido em estabelecer essa ponte.